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Cultura Pop A Rigor na Colab55

Review – O Farol

O Farol

The Lighthouse
Direção: Robert Eggers
Elenco: Robert Pattinson e Willem Dafoe
EUA – Canadá, 2019


São cinco os estágios do sono. No primeiro estágio, o sono é leve e podemos ser facilmente acordados. Podemos também experimentar movimentos espasmódicos de pernas ou outros músculos, que causam aquela sensação de queda durante os sonhos; no segundo estágio, os músculos começam a relaxar. O terceiro estágio é a primeira fase do sono profundo, onde o cérebro começa a trabalhar com ondas delta lentas, sendo mais difícil acordar e, ao fazê-lo, pode haver uma momentânea sensação de desorientação. O quarto estágio é a segunda fase do sono profundo. Aqui, o cérebro trabalha exclusivamente com as ondas delta lentas. O quinto e último estágio, é o R.E.M., ou Rapid Eye Movement (“movimento rápido dos olhos”), nessa fase do sono ocorrem os sonhos mais vívidos. Durante esta fase, os olhos movem-se rapidamente e a atividade cerebral é similar a que ocorre quando estamos acordados.

Resolvi falar um pouquinho de sono/sonhos nessa introdução, porque acho interessante ter em mente esses dados sobre as fases mais profundas do sono para analisar O Farol. Passado no no fim do século XIX, o filme acompanha dois homens que trabalham cuidando de um farol em uma ilha isolada pelo mar revolto e muita neblina. Os dois sinaleiros, Ephraim Winslow (Robert Pattinson) e de seu superior Thomas Wake (Willem Dafoe), vivem como em um sonho em que não se consegue acordar e onde nem tudo tem uma explicação.


Forçados a conviver em uma pequena cabana, por conta do trabalho, a geografia e o clima do lugar, a  hostilidade entre os dois homens é crescente. Como Wake, Dafoe vive um homem que se orgulha de seu passado como marinheiro e, com seu falar rebuscado, gosta de narrar suas aventuras. O personagem tem um senso de humor sarcástico, mas, ao mesmo tempo, é misterioso e meio que ameaçador. Robert Pattinson também está muito bem no papel do homem mais jovem, alternando insegurança e explosões de agressividade. 

O fato de O Farol ter sido filmado em preto-e-branco e em formato 1.19:1 ressalta o  flerte de Robert Eggers com o expressionismo alemão, mas também destaca o clima claustrofóbico e onírico. Em seu filme anterior, A Bruxa, o diretor discutia alegoricamente os efeitos da opressão religiosa e, especialmente, a repressão da mulher. Dessa vez, o foco é no universo masculino.

Não sou muito fã de procurar pênis ou qualquer outra simbologia para analisar filme, mas a referência ao falocentrismo é bem clara para deixar de comentar, não só pelo farol em si ser uma forma fálica, mas porque Eggers fortalece essa ideia todo tempo.


Em um ambiente completamente masculino, realizando um trabalho basicamente braçal, o que costuma ser associado aos homens, a relação com o farol é de veneração. Além disso, os conflitos entre os dois zeladores são desencadeados por uma disputa pelo privilégio de conhecer os segredos que o farol abriga. conflitos estes que têm a ver com a diferença de idade e a hierarquia que os separa, mas também são pontuados por uma tensão sexual, que ameaça toda essa noção de masculinidade. 

Como escrevi no início do texto, O Farol parece um sonho em que não se consegue acordar e, no momentos finais, isso fica ainda mais evidente. Em um verdadeiro caos, referências artísticas se misturam, como ao quadro Hipnose ou o mito de Prometeu acorrentado, condenado a ter seu fígado devorado por aves; são como colagens que o subconsciente pode fazer na construção de um pesadelo, em uma atmosfera que me remonta a algo que poderia estar na obra de H.P. Lovecraft.

Sascha Schneider, Hypnosis, 1904:



Peter Paul Rubens, Prometeu Acorrentado – 1610:



Com seus simbolismos, O Farol mostra o caminho dos homens até a insanidade, e constrói o horror através da angústia provocada pela hostilidade entre os personagens e a hostilidade da natureza para com eles. Aliás, vale destacar a edição e mixagem de som do filme, que transforma o som de gaivotas, navios ou mesmo de canecas batendo na mesa, em sons incômodos e perturbadores, mergulhando o público na angústia dos personagens.


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Autora: DRI TINOCO

Apaixonada por música, cinema e gatinhos. 

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