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Cultura Pop A Rigor na Colab55

Review - Ataque dos Cães

Ataque dos Cães

The Power of the Dog
Direção:  Jane Campion
Elenco: Benedict Cumberbatch, Kodi Smit-McPhee, Kirsten Dunst e Jesse Plemons 
Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e EUA, 2021



Apenas a segunda mulher a ser indicada ao Oscar de Melhor Direção, por O Piano, em 1993, com Ataque dos Cães, Jane Campion retorna de um longo hiato (seu filme anterior, Bright Star é de 2009). No filme, os fazendeiros Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), apesar de irmãos, são muito diferentes. George e afável e polido, enquanto Phil é o típico machão. No contexto hostil do oeste, obviamente, Phil é muito mais respeitado. A dinâmica entre os irmãos é perturbada quando George decide se casar com Rose (Kirsten Dunst). A moça é viúva — o marido teria se enforcou com uma corda —  e tem um filho, o estudante de medicina, Peter (Kodi Smit-McPhee). Assim, mãe e filho vão viver na fazenda. 


Como é de se esperar de um machão típico, Phil carrega uma boa dose misoginia e homofobia. Ele não esconde seu desagrado com o casamento do irmão, hostiliza a cunhada em todas as oportunidades e despreza o filho dela, já que Peter, de aparência frágil, é a antítese do que Phil considera ser um homem de verdade.  

Após o casamento, George quase não aparece mais no filme, pois está sempre viajando. Apesar de saber dos problemas da esposa com o irmão, evita interferir. Assim, embora em tons muito distintos, Rose é pressionada pelas expressões das masculinidades do marido distante, o cunhado agressivo e o filho que, mesmo amando-a, é cheio de segredos. Rose é uma mulher fragilizada em um ambiente inóspito. O que lembra a história de Ada em O Piano, sozinha, com sua filhinha. Aliás, Rose também toca piano. Mas, as semelhanças param por aí. Rose não tem a força de Ada e seu piano não é uma forma de se expressar; por vezes, o instrumento é o símbolo de seu cerceamento, como na sequencia em que é gentilmente obrigada a tocar para entreter os convidados do novo marido.  


Em poderosa performance de Cumberbatch, Phil é uma figura ameaçadora, mas também um tanto patética. Ele maltrata os mais fracos, mas ainda divide a cama com o irmão e passa os dias repentino o quão incrível era seu mentor Bronco Henry. Phil até preserva a sela utilizada por ele, como um objeto de arte ou um tesouro. Ele guarda também um lenço de seda, que carrega sempre junto a si, mas mantem escondido, assim como revistas que pertenceram ao professor. Tais revistas são publicações eróticas gay e ficam em um esconderijo na montanha. Manter desejos e sentimentos em segredo faz parte do dia-a-dia nesse local árido. 


A sequencia de dois eventos, quando Peter encontra as tais revistas e é flagrado por Phil, assistindo-o se banhar nu no rio, marcam uma virada na relação deles. As revistas simbolizam uma experiência, um segredo não-dito, mas compartilhado ainda assim. Phil parece identificar algo de si mesmo em Peter e passa a orientar o jovem, nas atividades de um cowboy, provavelmente como Bronco Henry outrora teria feito com ele próprio. Peter, por sua vez, aceita a orientação de bom grado. No entanto, mostra que não é tão frágil quanto parece. O gosto de por flores e arte sugere sensibilidade, mas essa característica não impede que o personagem tenha também um lado frio e, na falta de palavra melhor, sedutor.


Em seu famoso livro, O Erotismo, George Bataille, afirma que:

"Do erotismo é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na morte [...] A atividade sexual de reprodução é comum aos animais sexuados e aos homens, mas, aparentemente, só os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica [...] a nos lembrar constantemente que a morte, ruptura dessa descontinuidade individual a que a angústia nos prende, se nos propõe como uma verdade mais eminente que a vida."

Em outras palavras, há algo de erótico na morte, em saber que vamos morrer, ao mesmo tempo que o erotismo é uma forma de transgressão, de desafiar essa regra. Ataque dos Cães meio que sintetiza essa ideia, colocado a eminência da morte permeada por homoerotismo.


Jane Campion utiliza o erotismo de forma nada óbvia. Phil e Peter não trocam nenhuma confissão durante todo o filme e, muito menos, carinhos. Porém, quando sob o olhar de Peter, cada gesto cotidiano de Phil, como trançar uma corda ou fincar estacas no chão, ganham cores sexuais. Mas, o olhar de Peter não é só de desejo. É de escrutínio. Assim como a tensão que os envolve, não é só sexual. Phil não é diferente da lebre que Peter disseca para aprender mais sobre anatomia. No caso, essa "vivissectação" é do psicológica, emocional. 


Um dos aspectos mais interessantes da relação entre Phil e Peter, é essa dualidade. Sentir-se atraído por Phil, não faz com que Peter esqueça as ofensas a ele e a mãe. Dessa forma, como Bataille apontou, no erotismo, morte e desejo andam lado a lado. Em Ataque dos Cães, isso ocorre de maneira praticamente literal. 


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Autora: DRI TINOCO

Apaixonada por música, cinema e gatinhos. 

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