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Cultura Pop A Rigor na Colab55

Review - Benedetta

 Benedetta

Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Virginie Efira, Daphne Patakia, Charlotte Rampling, Lambert Wilson e  Louise Chevillotte
França, Bélgica e Holanda, 2021



Nesse ano, participei do Talent Press 2021 e pude assistir a vários filmes no Festival do Rio e, sem generalizar, um problema comum em alguns dos curtas e longas que assisti, é a necessidade de ser tão explicito nas ideias que quer expressar, que beira o didatismo. Mesmo mal do cinema de Adam Mckay, cujo filme Não Olhe para Cima virou tema de discursão lá no Twitter e que não possui nenhuma sutileza ou nuance. Em tempos de que tudo parece precisar ser dito tão abertamente, é revigorante ainda termos em atividade diretores como Paul Verhoeven, que nunca temeu ser controverso ou mal interpretado  o que já ocorreu diversas vezes, diga-se de passagem.  


Benedetta é a biografia de Benedetta Carlini. Baseado no livro Atos impuros (1986), de Judith C. Brown, o filme acompanha a freira que viveu na Itália entre 1590 e 1661. Benedetta se tornou freira ainda criança e chegou a ser abadessa, mas uma série de controvérsias levaram a sua queda e a uma vida de ostracismo. 

Na idade adulta, Benedetta (Virginie Efira) era frequentemente vista em transe e passou a apresentar estigmas, ou seja, as chagas de Cristo. Aos mesmo tempo em que Benedetta passa a ter sua visões, ela também passa a manter um relacionamento lésbico com uma freira recém admitida no convento,  Bartolomea (Daphne Patakia). Relacionamento pelo qual ela não sente nenhuma culpa. Na verdade, parece que o contato com o divino passa pelo prazer sexual. 


Acompanhamos, assim, toda a contradição da igreja católica. Afinal, Benedetta vai de santa a bruxa, de volta a santa em uma velocidade incrível. O interesse da Igreja em descobrir a verdade, vai mudando de acordo com o quanto tais revelações podem ou não favorecer a manutenção do poder católico.



Já citei O Erotismo de Bataille, em meu texto sobre O Ataque dos Cães, mas vou me repetir aqui a referência, pois o autor coloca como essência do erotismo, a transgressão. Por si só, o ato de realizar a atividade sexual por prazer, já seria uma transgressão. Agora, acrescente sexo lésbico, em um convento, entre freiras. Ainda para Bataille, a religião precisa tanto do interdito, ou seja da proibição, quanto da transgressão:

"Nas religiões universais, do tipo do cristianismo e do budismo, o medo e a náusea preludiam as fugas de uma vida espiritual ardente. Ora, essa vida espiritual, que se funda no reforço dos primeiros interditos, tem, entretanto, o sentido da festa, ela é a transgressão, não a observação da lei. No cristianismo e no budismo, o êxtase é conseguido ao se ultrapassar o horror. O acordo com o excesso que devasta tudo é às vezes até mais agudo em religiões em que o medo e a náusea corroeram mais profundamente o coração. Não há sentimento que conduza à exuberância com mais força que o sentimento do nada. Mas a exuberância não significa em absoluto a destruição, mas a superação do abatimento, a transgressão"

Dessa forma, Benedetta apresenta ares Barroco, estilo marcado marcado pelas contradições, uma mistura de referencias religiosas e profanas. Aliás, o seio nu da estatua da Virgem Maria, que aparece em alguns momentos do filme, assim como essa dicotomia, sexo x religião, me fez lembrar as famosas obras barrocas: Abençoada Beata Ludovica Albertoni e O Êxtase de Santa Teresa, ambas esculturas de  Gian Lorenzo Bernini.




Nas visões da freira, assim como já havia feito em Show Girls e Tropas Estrelares, Paul Verhoeven aposta no tom exagerado, propositalmente cafona mesmo. Ao mesmo tempo, em nenhum momento o filme abandona a ambiguidade.  Inclusive acerta em não tentar de forma alguma explicar as atitudes da personagem ou o que ela deseja. As visões são reais ou Benedetta deseja chamar a atenção? Ou ainda, seu objetivo é obter poder? Barroco em sua totalidade.


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Autora: DRI TINOCO

Apaixonada por música, cinema e gatinhos. 

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