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Cultura Pop A Rigor na Colab55

Review – Mank

Mank

Direção: David Fincher
Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Charles Dance, Tom Burke e Arliss Howard
EUA, 2020


Mank é um projeto bastante pessoal para o diretor David Fincher, afinal é baseado no roteiro de seu pai, Jack Fincher, escritor e jornalista (responsável, por exemplo, pela biografia de Howard Hughes, que daria origem a O Aviador, de Martin Scorcese). Fincher pai faleceu em 2003, ainda assim, recebeu o crédito único sobre o roteiro do filme.

Mank acompanha os bastidores da criação de um dos maiores clássicos do cinema estadunidense: Cidadão Kane (1941). O foco aqui é o roteirista Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman). O filme traça paralelos entre pessoas com quem Mankiewicz convivia e acontecimentos de sua vida com a história de Cidadão Kane, ao mesmo tempo que tenta desmistificar a figura do ator e diretor Orson Wells e a chamada Era de Ouro de Hollywood.

Embora a fotografia de Erik Messerschmidt e a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross confiram elegância, não conseguem disfarçar o quanto o filme é verborrágico e anacrônico. Emblemático que, em alguns momentos da narrativa, Cidadão Kane deixe de ser o assunto principal, abrindo espaço para a esquecida disputa política entre o republicano Frank Merriam e o democrata Upton Sinclair pelo governo da Califórnia.


No mais, o filme aborda a Grande Depressão e tece críticas aos grandes estúdios, através da maneira meio patética como retrata os figurões de Hollywood e também através do arco trágico do roteirista vivido por Jamie McShane ou ainda quando Louis B. Mayer (Arliss Howard) pede que os funcionários aceitem receber menos para manter o estúdio, mas não retoma os salários originais quando a situação melhora. No entanto, não espere nada muito contundente, esses acontecimentos são colocados de forma sempre fatídica e inevitável, o que é um modo – desculpe, mas não encontro outra palavra – bundão de criticar qualquer coisa, algo como: “foi errado, mas a vida é assim mesmo”.

Há ainda uma série de aspectos do filme que estão lá apenas por algum motivo muito pontual, como o subtrama da secretária de Herman J. Mankiewicz (Lily Collins), que não tem notícias do marido, um soldado. Dessa forma, ela está lá apenas para mostrar que Mankiewicz não é apenas um beberrão de personalidade difícil, que gosta de apostar, ele também é capaz de ser empático. Mesmo caso da montagem não-linear, que está ali apenas para fazer alusão a Cidadão Kane e não nem nenhuma outra utilidade na narrativa.


Se passamos a pensar filme em termos de acurácia histórica, aí que a coisa piora mesmo, afinal seu principal argumento e eixo dramático é de que Mankiewicz é o verdadeiro gênio por trás de Cidadão Kane, mas Hollywood o esnobou e a história subestimou seu trabalho, enquanto dava todos os créditos ao garoto prodígio, Orson Wells.

Esse argumento é baseado no artigo de Pauline Kael, publicado em 1971, Raising Kane. Kael  contesta a genialidade do diretor de Cidadão Kane, na época do filme, com apenas 25 anos. Ela praticamente acusa Wells de ser um farsante e não ter escrito nem uma linha do roteiro do filme. Para comprovar essa informação, Kael traz o depoimento da secretária de Mankiewicz, Rita Alexander, que estava o tempo todo com ele, quando este, se recuperando de um acidente, se afastou de Hollywood. Segundo a funcionária, o roteirista ditava o roteiro para que ela datilografasse. Ainda de acordo com Alexander,  Wells nunca esteve presente em nenhuma dessas sessões, apenas conversou algumas vezes com Mankiewicz por telefone. 


No artigo, Kael pinta Wells como um narcisista e egocêntrico, o que se reflete no filme de Fincher, onde o diretor (vivido por Tom Burke) briga para não dar os créditos do roteiro para Mankiewicz e sua única aparição na tela (as outras são nas sombras ou apenas falando por telefone) é tendo um ataque de estrelismo constrangedor.

Em 1972, o cineasta Peter Bogdanovich escreveu o artigo The Kane Mutiny, que destrói as provas de Kael. Bogdanovich entrevistou Wells sobre a polêmica e o diretor contou que, por não poder se reunir com Mankiewicz, cada um escreveu um roteiro diferente. Mais tarde, ele pegou as partes das quais gostara no trabalho de Mankiewicz e costurou junto a seu script. Como é uma fala de Wells, pode ser que ele não estivesse dizendo a verdade para valorizar seu próprio trabalho. Contudo, sua secretária, Katherine Trosper, confirmou a versão. Trosper alegou ter trabalhado muitos dias datilografando o roteiro de Cidadão Kane, além de presenciar Wells escrever e reescrever o script diversas vezes, mesmo quando as filmagens já haviam começado.

Em outra pesquisa, Robert L. Carringer fez um importante levantamento junto a RKO Pictures, em que comprova que os dois primeiros scripts entregues eram realmente apenas de Mankiewicz, porém há cinco outras versões do roteiro que não contaram com sua participação. No artigo, o jornalista também compara as versões, mostrando as diversas mudanças, como retirada e inclusão de novas cenas, crucias para que Cidadão Kane fosse o filme que foi. Ou seja, Wells não mentiu. Sobre a sequencia em que o diretor se recusava a creditar Mankiewicz, simplesmente não há qualquer prova de que algo assim tenha acontecido.


É problemático (e preguiçoso) que tantos anos depois do artigo de Kael ser desmentido, Fincher escolha essa versão para levar às telas, em prol de construir em torno de Mankiewicz a imagem do anti-herói injustiçado e, dessa forma, aumentar a dramaticidade da narrativa. E o pior é que ele acaba validando essa versão mentirosa. Por exemplo, enquanto escrevia esse texto, li outras críticas, e mais de uma vez, vi frases como “o filme desmascara Wells”, um deles chega a dizer que na polêmica de quem escreveu Cidadão Kane, “Fincher bate o martelo”, como se o filme tivesse o poder de decidir o que é verdade ou não.

Sabemos (ou deveríamos saber) que filmes “baseados em eventos reais”, quase sempre trazem uma boa dose de ficção, por isso não tiro a culpa dos autores desses textos por não fazerem uma pesquisa antes de acreditar em tudo que está na tela, mas não dá para cineastas lavarem as mãos e fingirem não possuir qualquer responsabilidade sobre o que o público assimila como verdade.

Hollywood tem mesmo um histórico de valorizar cineastas e esquecer roteiristas. No entanto, ainda que fosse verdade que Orson Wells não escreveu Cidadão Kane, é bem tonta essa ideia de que o roteiro é o que faz a obra ser relevante, como se um filme não fosse um conjunto, que envolve texto, direção, atuações, iluminação, montagem, etc; como se dirigir se limitasse a ligar a câmera e, ao final, gritar “corta”. Mank é mesmo a obra ideal para a parcela do “film twitter” que diz que o roteiro é a parte mais importante do filme.



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Autora: DRI TINOCO

Apaixonada por música, cinema e gatinhos. 

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