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Cultura Pop A Rigor na Colab55

Review – Série ReMastered – O mundo da música e as questões políticas e sociais

ReMastered é uma série em documentário da Netflix em oito episódios, que variam entre 40 e 80 minutos de duração. A série traz a história de alguns artistas da música ou bandas em um contexto político e social de uma determinada época em algum país. Três episódios foram lançados em 2018 e mais cinco em 2019. Até o momento, nenhum episódio foi lançado em 2020; podem já terem encerrado a série ou a produção de novos episódios ter sido atrasada pela ocorrência da pandemia, pois não achei notícia sobre novos episódios, mas também não há informação sobre seu encerramento.


Eu comecei a assistir a série no final do ano passado e só terminei recentemente. Escrevi esse review porque considerei uma série que merece ser assistida e mais comentada. Ela traz a possibilidade de conhecermos outras facetas de nomes famosos da música e também grandes músicos quase esquecidos hoje, além de aprender mais sobre fatos históricos e políticos e a inserção da música neles.

Abaixo apresento um pequeno review de cada um dos episódios, com minha cotação pessoal, no entanto, de forma geral, a qualidade técnica e narrativa não muda muito de um episódio para outro. É a qualidade de bons documentários feitos para a TV, emissoras de respeito. Hoje, dependendo do caso, não é demérito nenhum dizer que algo foi feito para a TV. Todos os episódios possuem edição e trilha sonora ágeis, recursos como dramatização são pouco utilizados, apenas em quadros sem diálogo, só reconstituição de cenas de crimes e outros fatos. Um ou outro episódio busca mais melodrama, em alguma entrevista, por exemplo, mas nada muito forçado, que comprometa. Os filmes têm a mesma equipe de produção, liderada pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, do documentário “Favela Rising“, com diferentes diretores. Só para informação os irmãos Zimbalist estão sendo processados por TJ Barrack e Marc Joubert de uma tal Adaptive Studios, que pedem parte dos direitos da série e indenização. Eles alegam que o conceito de ReMastered e o primeiro episódio, sobre o atentado contra a vida de Bob Marley, foram roubados deles que teriam apresentado a ideia para os irmãos em 2012, para que fossem diretores do filme, mas como HBO e Showtime não se interessaram em realizar o projeto Barrack e Joubert desistiram, anos mais tarde eis os Zimbalist produzindo ReMastered na Netflix.

Processos a parte, o melhor de tudo é mesmo a pesquisa dos fatos históricos e das carreiras dos artistas, que é bem consistente, indo até os principais envolvidos que ainda estão vivos, incluindo personalidades políticas. Então, vamos aos episódios e um pouco das músicas envolvidas, é tudo fato real conhecido, mas para não falar que não avisei, tem spoilers:


1 – Who Shot the Sheriff?


O primeiro episódio aborda o atentado que o ícone Bob Marley sofreu em 1976, em meio a uma crise político-social na Jamaica. Um governo socialdemocrata (ou de esquerda, alguns vão preferir) iniciava reformas no país, o que desagradava a ala política da direita conservadora; dessa forma, ocorria uma ascensão de grupos fascistas, incluindo milícias armadas, enfim, parecia o Brasil prestes a sofrer o golpe em 1964 e os nossos pesadelos com o quadro que se desenvolve no país atualmente. Aquela época era o período da Guerra Fria no mundo.

O filme investiga o atentado, até hoje sem um culpado condenado; entre os suspeitos, políticos jamaicanos e a CIA. Os motivos têm a ver com a importância de Bob Marley para o país e como ele vinha se posicionando. A tentativa de assassinato ocorreu dias antes de sua apresentação no Smile Jamaica, festival em prol da paz. Não foi isso que matou Bob, mas ele teve ferimentos no braço e no peito. Abaixo uma parte do concerto que Bob Marley realizou dois anos depois do atentado, nela o artista chama ao palco o primeiro-ministro jamaicano Michael Manley e o líder da direita Edward Seaga na tentativa de acalmar a convulsão política no país.


2 – Tricky Dick and the Man in Black


O segundo episódio é um dos poucos que não investiga um assassinato ou outro crime. A história narra o encontro entre o homem de preto Johnny Cash e o presidente dos EUA Richard Nixon na Casa Branca. Era década de 70 e Cash já era super reconhecido como artista do Country e do Rock, além de ser influente no país até com um programa na televisão. Com uma criação conservadora, Cash era conhecidamente de ideais republicanos e já havia manifestado apoio ao soldados enviados ao Vietnã, assim, se acreditava no seu total apoio ao presidente Nixon, prato cheio para numa jogada de marketing. Dessa maneira, Cash é convidado para um show na Casa Branca.

Entretanto, o show não ocorre como o esperado. Como o documentário mostra ao narrar fatos de sua vida, Johnny Cash era muito mais complexo do que Nixon e muitos pensavam. Nixon pediu para que Cash cantasse duas canções de letras consideradas conservadoras: “Okie from Muskogee“, sobre o padrão de vida caipira contra os hippies e “Welfare Cadillac“, cuja letra critica cidadãos que ganham pensões do governo. Johnny Cash aceitou, mas na hora mudou o repertório, cantando “The Ballad of Ira Hayes“, que narra a história de Ira, índio americano abandonado pelo país após servir o exército dos EUA na Segunda Guerra Mundial (ele foi retratado no filme “A Conquista da Honra” de Clint Eastwood), “Man in Black” e uma canção, que foi declamada em parte, chamada “What is Truth“, que na verdade defendia a juventude e criticava a Guerra.

3 – Who Killed Jam Master Jay?



O terceiro e último episódio de 2018 investiga o assassinato de um nome importantíssimo para o rap, o DJ do grupo Run DMC, Jam Master Jay, um dos pioneiros no gênero. Sua morte ocorreu em um estúdio em Nova York em 30 de Outubro de 2002. Assim, em busca de respostas o filme mergulha no mundo do rap dos EUA.

4 – Massacre at the Stadium


O primeiro episódio de 2019 se passa no Chile e traz a luta de Joan Jara, viúva do músico, poeta, diretor de teatro, ativista comunista e professor Victor Jara pela condenação do militar que o assassinou, durante a ditadura do general Augusto Pinochet. Para ter uma ideia da importância das músicas de Victor Jara e seu ativismo, enquanto cantor popular no país ele foi morto dias depois do golpe em 1973, no estádio que se tornou palco do massacre de perseguidos pelo regime ditatorial e hoje se chama Estádio Victor Jara.

Victor Jara é reconhecido internacionalmente, já foi homenageado por nomes como Peter Gabriel, U2 e Bruce Springsteen. Todo ano ocorre no Chile o evento “Mil Guitarras para Víctor Jara” que reúne músicos em homenagem a ele. Recentemente, uma de suas músicas mais conhecidas “El derecho de vivir en paz” voltou a ser cantada em protestos, dessa vez nas manifestações contra o governo atual do Chile do presidente Sebastián Piñera.

5 – The Two Killings of Sam Cooke


“As duas mortes de Sam Cooke“, no título em português, mostra como o racismo estrutural interrompe trajetórias. Sam Cooke, considerado por muitos o fundador da soul music, apontado pela revista Rolling Stone como o quarto maior cantor de todos os tempos, e também o 16º maior artista de todos os tempos, nos anos 50 só perdia a liderança das paradas de sucesso para Elvis Présley.

Além de grande cantor, Cooke se posicionava contra o racismo, se tornou um ativista pelos direitos civis, fez amizade com Muhammad Ali e Malcolm X, se tornou também um empresário da música para lançar outros artistas negros. Óbvio que desagradou muita gente, incluindo poderosos da indústria fonográfica. Sua morte, em circunstâncias estranhas, objetivou não só apagar sua existência, como sua luta, tentando o colocar como um criminoso, da mesma forma que sempre tentam classificar os negros, por isso as duas mortes do título. Eu havia ouvido falar de Sam Cooke, mas o conheci mais após ver esse documentário. Um de seus clássicos “A Change Is Gonna Come“, várias vezes já regravada, esteve em várias trilhas sonoras de filmes que abordam temática de luta racial.

6 – The Miami Showband Massacre


Esse sexto episódio foi o que mais me surpreendeu, porque eu nunca havia ouvido falar da The Miami Showband, então achei que fosse gostar menos. Mas, pelo contrário, a história é narrada de forma muito tocante e o mergulho histórico que faz na questão do terrorismo de grupos como UFV, UDR e o IRA é muito bem realizado. A The Miami Showband foi uma banda irlandesa que fez grande sucesso por lá nas décadas de 1960 e 1970, liderada pelo cantor Dickie Rock e, mais tarde, pelo ótimo vocalista Fran O’Toole, eram considerados os Beatles da Irlanda.

Mesmo sendo de Dublin, a Miami realizava shows em toda a Irlanda, inclusive no Norte. Mesmo não se posicionando politicamente para a mídia e o público, cinco integrantes foram alvo de uma emboscada, quando retornavam da Irlanda do Norte para Dublin, em julho de 1975. Foram assassinados Fran O’Toole, o guitarrista Tony Geraghty e Brian McCoy, trompetista. O filme é narrado pelo baixista, e um dos sobreviventes, Stephen Travers, que luta pelo sucesso das investigações chegando até os terroristas e revelando uma trama que envolve conspiração com o governo britânico, que usaria o atentado para provocar o fechamento das fronteiras, dificultando a entrada de membros do IRA na Irlanda do Norte. É uma história escabrosa.

7 – Devil at the Crossroads


“O diabo na encruzilhada” investiga o mito de Robert Johnson, que era um músico mediano de Blues, sumiu por um tempo e voltou tocando muito, fazendo coisas que ninguém fazia. Dizem que vendeu sua alma ao diabo. O filme aborda esse mistério, aponta outras explicações e mostra como a vida dele foi marcada por racismo e preconceito por tocar a “música do diabo” como o blues era conhecido. Sua morte foi sofrida num abandono pelas autoridades, óbvio, homens brancos, mas também pela comunidade negra, a maioria cristã protestante. O filme também mostra toda sua importância para o Blues, Jazz e Rock influenciando nomes como Muddy Waters, Eric Clapton e Keith Richards.

8 – The Lion’s Share



“O Rei Leão e o músico esquecido” conta mais uma história pesada de racismo. A música “The Lion Sleeps Tonight” gerou muitos milhões ou bilhões de dólares desde que tocou em “O Rei Leão“, no filme e no musical de teatro, além de diversas produções como Friends, etc. Mas essa musica veio de ‘Wimoweh’, que veio de “Mbube”, a qual o compositor original, o sul africano Solomon Linda, morreu pobre. O filme acompanha o jornalista sul-africano Rian Malan e advogados, juntos às filhas de Linda, buscando provar os direitos sobre a música e receber o que é devido.

De todos da série ReMastered foi o que menos gostei, embora recomendo ver devido a importância da história. Não é por causa do “White savior“, embora o próprio Rian Malan admita querer se redimir pelo que seus familiares fizeram contra os negros durante o Apartheid na África do Sul, mas porque, diferente dos outros, esse episódio parece não querer bater em quem tem que bater. Todo o processo é errado, a Disney faz um acordo e cria um fundo para gerir o dinheiro que iria para as filhas de Solomon Linda, um fundo dirigido por homens indicados pelo governo sul-africano, como se elas não tivessem capacidade de administrar o dinheiro. Os advogados ficam com grande parte, chegam a insinuar que elas iam gastar com bebida, como se brancos também não bebessem para comemorar. E apesar do filme no final dizer a (pouca) quantia que as irmãs receberam, passa a ultima parte do filme querendo reforçar uma ideia de que foi um mal entendido, como se negros precisassem ser tutelados, mas está na cara que elas foram mais uma vez roubadas, como seu pai.


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Autor: DRÉ TINOCO

Professor de Geografia, cinéfilo nas horas vagas 

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