Mercado, internet e autor vs obra, por Júlia Grilo

A tiragem média de um escritor publicado por uma editora grande no Brasil é de cerca de 2 mil exemplares, que são vendidos ao longo dos anos. Eu tinha o objetivo de vender ao menos 300 exemplares com “Cães”, meu primeiro livro, publicado pela editora Penalux. Achei que levaria alguns meses, mas eles esgotaram em poucas horas! Isso me deixou bem feliz, porque a maior parte da divulgação e distribuição foram por minha conta. Acabei aprendendo que o marketing é uma corruptela da literatura: ambos giram ao redor d'uma narrativa, uma historieta. Tentei encontrar a história da história de “Cães” e difundi-la — a internet é ridícula e por isso mesmo ela é ótima. Há quem tenha uma posição mais conservadora e defenda que à obra nada deve se misturar – nem o próprio autor –, mas eu me fascino bastante por aqueles que conseguem se apropriar artisticamente dos formatos digitais, o que é um desafio e tanto. Pode-se encontrar um sentido bastante filosófico nos memes, quando eles são pensados como criações que se multiplicam infinitamente para além de seus criadores, dando sentido à vontade existencial (e biológica) de perpetuar-se para além de si mesmo. “Cães” deu certo, acho, porque virou meme – e não dá para pensar o espírito de nosso tempo sem pensar na internet. 

Quando terminei “Cães”, eu já sabia que uma editora grande era coisa de gente importante. Nem me iludi; assumi meu destino resignada, sabendo que os critérios de publicação das grandes casas editoriais são mais mercadológicos que estéticos. Muitos escritores podem vacilar nessa etapa, desesperar-se diante da rejeição dos editores (a rejeição sempre dói). Por isso é importante que o autor conheça bem o seu texto e os seus objetivos com a publicação.

A publicação de “Cães” se guiou pela resignação, pelo reconhecimento dos meus limites. O mercado editorial é um mercado, possui a lógica de um mercado. E não digo isso com lástima, acho que há coisas que a gente tem que aceitar ou então enlouquece. A liberdade da autopublicação é custosa: se ver diante do texto pronto, nas etapas finais, e não poder contar com a intervenção tutelar de um editor dá um medo danado. Aquela coisa enorme na frente da gente, aquele amontoado de palavras, e eu ficava pensando: “meu deus, o que eu faço agora?” É um processo bastante solitário — trata-se de um tipo diferente de duelo, não desses que nos coloca contra outra pessoa, mas um que nos põe contra nós mesmos. Para escolher uma editora, tive como critério que eu não precisasse custear a publicação e que eu pudesse me sentir à vontade e ter liberdade de construir o livro junto a eles. Deu certo: “Cães” ficou com a carinha que eu queria! A liberdade é custosa, mas nos dá bastante autonomia. 

Quando a gente publica, autoriza o acesso das pessoas não só à intimidade do texto – o que é natural –, mas às agruras da nossa imagem, da nossa representação, o que pra mim é mais exigente do que quando leem “Cães” tentando descobrir o que é ficcional ou não. Há quem fique espantado, me perguntando: isso que você escreveu aconteceu mesmo?, e eu não ligo, não me sinto nem um pouco exposta. Mas me vi vulgarmente desnuda quando tiveram que tirar uma foto minha num sebo cheio de gente, a minha imagem sendo capturada, sendo fixada por um outro alguém que iria fazer sabe-se lá o que com ela. 

Agora, eu que sempre fui muito fã (não num sentido devocional, porque nunca soube lidar muito bem com a autoridade), que sempre gostei de admirar e contemplar os espetáculos que me atropelavam, estou aprendendo como é que funciona aquela parte que os meus artistas prediletos escondiam de mim. Os fios soltos dos bastidores têm me deixado aflita. Tomando a frente da publicação, eu me faço, ao mesmo tempo, os bastidores e o espetáculo, o que me enche de ansiedade. A dubiedade desta condição, que me permite transitar entre a luz e a sombra, às vezes me deixa pensando que nada existe a não ser que seja inventado. A tensão entre ficção e biografia é um tema antigo, que inclusive desemboca na contemporânea discussão sobre a separação entre autor e obra (eu adoro um filme do Polanski em segredo, porque ele foi cancelado). Mas acho que os contornos industriais do mercado artístico e o momento kardashiano de culto à celebridades intensificam o interesse (não só o interesse, mas também a exploração) pela vida dos artistas. Agora eu entendo porque Elena Ferrante sumiu. Às vezes eu fico com vontade de sumir que nem ela: mais que meramente contemplados, é preciso que sejamos consumíveis.



*Júlia Grilo é romancista, ensaísta e cronista baiana. Seu livro de estreia “Cães” (Editora Penalux, 2020, 155 pág.), que conta com orelha escrita pela cartunista Laerte Coutinho e prefácio de Wagner Teles, foi lançado em formato de e-book via Amazon

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