Jauja

Direção: Lisandro Alonso
Elenco: Viggo Mortensen, Ghita Norby, Viilbjørk Malling Agger, Adrián Fondari
Argentina, Dinamarca, França, Holanda, EUA, México e Brasil - 2014



No final da semana passada fui lá no Cine Arte UFF conferir Jauja (pronuncia-se RAURRA), filme mais recente do diretor argentino Lisandro Alonso. Depois de assistir a um filme, gosto de ler algumas resenhas e saber o que o pessoal achou. Tem uns bons textos, mas, olha, tem uns que fizeram meus olhos sangrar… Obviamente, ninguém é obrigado a gostar de filme algum, entretanto, principalmente quando você se diz crítico de cinema, acredito que você precise fazer um esforço para ir além de uma compreensão superficial do filme analisado porque tem gente aí chamado Jauja de “filme instagram”, cuja “estética não tem relação com a trama” ou que “pessoas normais não vão gostar”. Como eu sou anormal mesmo, curti o filme e deixo aqui minha análise.


No século XIX, na remota região da Patagônia, durante a chamada campanha militar Conquista do Deserto, que dizimou a população indígena local, Viggo Mortensen  é o engenheiro dinamarquês Gunnar Dinesen, que  auxilia um grupo de soldados argentinos. Gunnar viaja acompanhado de sua filha adolescente, Ingeborg (Viilbjørk Malling Agger). O grupo esta envolvido na tarefa de encontrar o comandante argentino Zuluaga, que desapareceu misteriosamente, correndo boatos de ele teria se unido aos índios. Em meio a isso, Ingeborg foge com um jovem soldado por quem se apaixonou e seu pai inicia uma solitária busca pela menina, percorrendo as melancólicas terras da Patagônia.

Essa premissa não diz praticamente nada sobre o filme. Em Jauja, a paisagem bucólica e, por vezes, perigosa, tem papel crucial para desenvolver um ensaio filosófico  sobre o tempo e uma reflexão sobre como nós, seres humanos, sabemos pouco a respeito do que nos cerca, metafisicamente falando e também na interação entre diferentes sociedades. Por exemplo, em dado momento, Gunnar questiona o comandante argentino (Adrián Fondari) sobre o modo pejorativo a que se refere à tribo local e o fato de não fazer nenhum esforço para entender sua cultura. O argentino responde que não precisa conhecê-los, apenas dizimá-los.

Vale ressaltar ainda as opções estéticas tomadas por Alonso.  Como você pode ver aqui:



O formato de tela é um quadrado de bordas arredondadas, que remete a um quadro. Contribui para isso, os planos amplos que nos levam em uma viagem pela exótica Patagônia, além  a postura quase sempre rígida e um certo ar de distanciamento dos atores, que permanecem por um longo tempo na mesma posição, como que esperando que algum pintor conclua o retrato. E o que é um quadro, senão um pequeno fragmento do tempo, do qual, quase sempre, pouco sabemos além do que coube nos limites da moldura?

Outro ponto é quase ausência total de diálogos. São bem poucos ao longo do filme, entretanto, de muita importância, mesmo que você não perceba inicialmente. Como logo no inicio do filme,  quando Ingeborg pede um cachorro a seu pai. Ele lhe diz que ela se poderá ter o animal quando eles voltarem para casa:

– Que tipo de cachorro você gostaria?

– Um que me siga por todos os lugares.

Aliás, é muito interessante como uma única figura, a do cão, serve para diversas metáforas ao longo do filme e também como uma ligação entre passado e presente.


Com seu desenrolar lento e plot twist surpreendente que mergulha no surrealismo, e nenhum esforço no sentido de se auto explicar, Jauja, com certeza, não é um um filme para agradar a todo mundo (nada agrada a todos, de qualquer forma, nem lasanha) e deve frustrar quem gosta de narrativas lineares e resoluções fechadas, pois, no final das contas, muito do que parecia estar em primeiro plano no filme, se mostra a penas uma distração, para ocultar do que se trata a história, culminando em um final que não conclui, deixando espaço para as teorias do espectador.



Espalhe:

Dri Tinoco

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