Getúlio

Elenco: Tony Ramos, Drica Moraes, Thiago Justino, Alexandre Borges, Fernando Luís, Murilo Grossi, Leonardo Medeiros, Marcelo Médici, Alexandre Nero, Jackson Antunes, Adriano Garib, Daniel Dantas, Clarisse Abujamra.
Direção: João Jardim
Brasil, 2014

Getúlio, em exibição atualmente nos cinemas, conta o que aconteceu nos dezenove últimos dias do presidente do Brasil, Getúlio Vargas. Uma das figuras da história brasileira mais controversa e mais interessante de se estudar. O longa-metragem, dirigido pelo cineasta João Jardim, dos documentários Janela da Alma e Lixo Extraordinário, acompanha toda a pressão sobre o presidente naqueles últimos dias, que antecederam seu suicídio.

O filme, portanto, não mostra os primeiros 15 anos de Getúlio no poder (1930 a 1945), em sua fase ditatorial, o Estado Novo de 37 a 45. Também não acompanha os primeiros anos da sua volta, eleito “nos braços do povo". Porém, no inicio, apresenta o recurso interessante da narração em off, onde o próprio Getúlio resume sua história, se assumindo enquanto ditador naquele período anterior. Frases como “Gosto mais de ser interpretado do que me explicar”, ajudam a compor a figura que foi Vargas.

Getúlio conta como o atentado contra o jornalista e político Carlos Lacerda (Alexandre Borges), que ficou conhecido como “O crime da rua toneleiros”, foi o estopim para a crise do governo e o suicídio de Getúlio (Tony Ramos). Lógico que há outros motivos para as insatisfações dos adversários que, como são anteriores, o filme não chega a mostrar. Por exemplo, a estatização do petróleo que desagradou os Estados Unidos e políticos entreguistas, as políticas populistas a favor de trabalhadores, que deixavam as elites descontentes. Mas, é uma boa escolha se focar nos últimos momentos de Vargas.

Lacerda, principal opositor de Vargas, fica ferido no atentado, mas quem morre é o major da Aeronáutica, que fazia sua segurança particular. Se descobre o envolvimento de pessoas pertencentes ao governo, bem próximas ao Vargas, incluindo parentes. Na mesma hora, Lacerda começa a usar o caso para se promover e atingir o governo através da mídia. Ele acusa Vargas de ser o mandante do atentado. Os militares também se colocam contra o governo. A situação se complica com a descoberta da participação de Gregório Fortunato (Thiago Justino), chefe da guarda pessoal de Getúlio, que de tão próximo ao presidente, penteava os cabelos dele, como documentado em fotos e o filme não deixa de mostrar.

Assim, Getúlio se desenrola quase todo no Palácio do Catete, sede do governo, mostrando a tensão com os aliados e opositores nos diferentes escalões do governo e também com a família Vargas. A bela fotografia e a boa trilha sonora ajudam a compor a pressão sobre Vargas. Recursos como a solidão do presidente caminhando pensativo pelo palácio, tendo pesadelos a noite, que poderiam deixar o filme mais arrastado não compromete e ajuda a entender os motivos para ele tirar a própria vida.

Alguns problemas do filme têm a ver com o didatismo exagerado, para que o publico entenda quem são os personagens. Em alguns diálogos soa estranho como se referem a uma pessoa já conhecida pelos personagens em cena. Também é estranho o sotaque de alguns personagens. O próprio Ramos carrega demais em algum momento, embora não comprometa sua atuação. Exagerada também a pança feita com enchimento que o presidente exibe, tudo bem que Vargas gostava de um bom churrasco gaúcho com carne Friboi, mas estava demais. O elenco como um todo está bem. Drica Moraes está ótima como Alzira, a filha devotada de Vargas que também participava das discussões e articulações nas tomadas de decisões políticas.

Assim, Getúlio não é propriamente um filme político, mas um retrato da figura Getúlio Vargas. É um pouco o que foi tentado no filme A Dama de Ferro, sobre Margareth Tatcher, só que melhor. A Dama de Ferro pecava no fato de, ao mesmo tempo que focava no fim da vida de Tatcher já senil, tentava cobrir os anos em que ela foi primeira ministra em um filme pequeno. Acabou que não foi bem nem numa coisa nem na outra. O único ponto forte foi a atuação de Meryl Streep. Aqui temos um Getúlio bem construído, assim como a cena política daquele momento específico.

Destaque também para como a questão do atentado é conduzida. O caso fica nebuloso como na vida real, não se sabe o quanto tem armação de Carlos Lacerda e nem até que ponto Vargas poderia está envolvido. O filme humaniza Vargas, mas não que o suavize como Tatcher em A Dama de Ferro, que acabou diminuindo a imensidão da personagem.

O final, quando aparece o que acontece pós o suicídio de Vargas, também é importante. A morte de Vargas adiou em dez anos o golpe civil militar que ocorre em 1964. As mesmas forças que estavam contra ele, estimulando o caos no país através da mídia, assim dando justificativa para uma intervenção militar, farão mais tarde o mesmo no governo João Goulart. Dessa vez tendo sucesso, assumindo o governo, diminuindo os avanços sociais que vinham ocorrendo e aumentando a concentração de renda. Portanto, até a morte de Vargas foi estratégica. “Saio da vida para entrar na História” disse em sua carta testamento.



Espalhe:

Dré Tinoco

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