Um Método Perigoso

A Dangerous Method
Diretor: David Cronenberg
Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Sarah Gadon, Vincent Cassel
EUA, 2012



Um Método Perigoso é baseado na peça The Talking Cure, do britânico Christopher Hampton, inspirada, por sua vez, no livro de John Kerr, A Most Dangerous Method. O filme mostra o conflito intelectual entre os psicanalistas Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender). Conflito que tem como principal catalisador a paciente Sabina Spielrein (Keira Knightley). Entretanto, ao contrário, do que se espera, o longa se mostra superficial.

Acredito que o maior problema do filme de David Cronenberg está na escolha de mostrar os acontecimentos na forma de recortes pontuais. Temos grandes saltos temporais entre os eventos, o que deixa a impressão de pressa.  O filme começa com Sabrina em crise, conhecendo Jung; pouco  depois temos o encontro entre Freud e Jung, Sabrina já se torna assistente de Jung, surge as primeiras divergências de ideias entre os psicanalistas, trazidas a tona por outro paciente,  Otto Gross (Vincent Cassel);  e Jung e Sabrina já mantêm um caso. Tudo muito rápido assim. Com o ritmo do filme, parece até que os personagens mudam de opinião repentinamente.

Por exemplo, um dos principais pontos de discordância entre Freud e Jung, o modo como o segundo se volta para a religião e o sobrenatural, enquanto o primeiro busca sempre os métodos científicos e fatos para comprovar suas teorias, é outro acontecimento repentino. Em nenhum momento no filme é mostrado o lado religioso de Jung, até surgir o debate entre os dois. Não tem como não soar forçado.



Eu falei que os acontecimentos em recortes eram o principal problema, mas não o único.  Ao que me parece, Um Método Perigoso tenta, através de seus três personagens masculinos principais, exemplificar a Teoria dos Níveis de Personalidade de Freud. Otto é o ID, em linhas gerais, o instinto, a libido. Freud é o Superego, que aponta quando um comportamento é inadequado. Já Jung é o ego, um mediador entre o ID e o superego. Perspectiva muito interessante, se não fosse um problema: na teoria de Freud, esses três níveis dizem respeito à personalidade de um único individuo.  Nós todos vivemos esse “conflito” interno, analisando se nossa vontade está de acordo com o que é socialmente aceitável.  Limitar os personagens a um nível apenas é torná-lo raso. Dessa forma, vemos um Jung volúvel, uma criatura meio patética, em busca de uma figura paterna, mudando de opinião de acordo com o que Otto ou Freud diz.

Outro ponto que incomoda é a maneira superficial como é mostrada a teoria da Pulsão Sexual de Freud, totalmente baseada no senso-comum, de que o psicanalista, simplesmente, só pensava em sexo. Quando, na verdade, é facilmente verificável que essas teorias iam muito além de uma fixação na relação sexual em si.

Se o filme é superficial, as atuações idem.  Não que, tendo em vista que o filme se mostra quase sem profundidade, fosse esperada alguma grande interpretação. Michael Fassbender, por exemplo, excepcional em Shame ou mesmo em X-Men: Primeira Classe, entrega um Jung apático. A verdade é que as atuações são um arroz-com-feijão, longe do ruim, mas nada digno de nota, com duas exceções. 

Viggo Mortensen é o único que, apesar de um Freud unidimensional, assim como os demais personagens, consegue torná-lo mais interessante, emprestando-lhe, sutilmente, cores e nuances. As cenas com os debates entre Freud e Jung são disparadas as melhores do filme. Infelizmente, o psicanalista austríaco pouco aparece.

Já  Keira Knightley, atriz normalmente competente, aqui se mostra bastante caricata. Os momentos iniciais, durante os surtos de Sabrina, são constrangedores e risíveis, com a exagerada gagueira e gestual grotesco. Até entendo que talvez a intensão fosse exatamente criar algo bizarro, mas o não encaixa com o tom do filme, soa muito exagerado.



Mais duas coisas. Incomoda-me alemães, suíços, russos e austríacos  falando inglês, como se fosse muito natural (mesmo que já ocorreu em Operação Valquíria, por exemplo, e em muitos outros filmes). Fora isso, o greenscreen, na cena em que Freud e Jung estão no navio, chegando à América, com a Estatua da Liberdade ao fundo, é bem tosco.

Fora a reconstituição de época, alguns bons diálogos (como quando Jung pede que Freud lhe revele um sonho, e este se recusa, pois “perderia sua autoridade”) e, claro, a atuação de Mortensen, um filme apenas ok, muito aquém da grande filmografia de Cronenberg e da importância de Freud e Jung para a psicanálise.



Espalhe:

Dri Tinoco

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